Epopéia científica dos pesquisadores da Embrapa permitiu a introdução da planta, originária da China, no bioma
Herton Escobar escreve para “O Estado de SP”:
As árvores de casca grossa, caules retorcidos, e o chão de terra poeirenta não deixam dúvidas: o cerrado não é lugar para qualquer plantinha. Durante seis meses do ano, entre maio e setembro, não cai uma gota de chuva nesse interiorzão brasileiro. E mesmo quando chove, o solo nativo é imprestável para a agricultura: ácido, cheio de alumínio tóxico e pobre em quase todos os nutrientes essenciais.
Só mesmo um louco – ou um bando de cientistas destemidos – para achar que esse ambiente de biodiversidade riquíssima, porém aparentemente inóspito e improdutivo, poderia se tornar um dos canteiros mais férteis da agricultura mundial. Mas aconteceu. Foi obra da Embrapa. Trinta anos atrás, a recém-criada Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária lançou sua maior “insanidade” científica: pegou uma planta de origem chinesa, típica de climas temperados, e fez dela a rainha da agricultura tropical.
A soja, que até os anos 70 só podia ser plantada do Paraná para baixo, onde o clima era mais parecido com o da China, virou-se para o norte e tomou conta do cerrado. Invadiu Mato Grosso do Sul, avançou pelas bordas do Sudeste, conquistou Goiás, criou raízes em Mato Grosso, subiu pelo Tocantins, embrenhou-se no Maranhão e foi bater na porta da Amazônia. “Hoje temos tecnologia para cultivar soja em qualquer lugar do País, em qualquer época do ano”, diz o pesquisador Plínio Souza, da Embrapa Cerrados, um dos principais responsáveis pela invenção da soja tropical. “É uma tecnologia 100% brasileira.”
Em pouco mais de três décadas, turbinada pela nova genética verde-e-amarela, a oleaginosa chinesa transformou-se no maior produto do agronegócio brasileiro. Em 2007, a indústria da soja movimentou R$ 41,3 bilhões em grãos, máquinas, sementes, fertilizantes, pesticidas, logistica, mão-de-obra, refino de óleo, produção de ração animal e outros componentes da cadeia produtiva. Isso equivale a 6,4% do PIB agrícola e 1,6% do PIB total do País.
Os cálculos foram feitos pela Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), a pedido do Estado. Só as exportações do complexo soja (grão, farelo e óleo) renderam R$ 26,2 bilhões no ano passado, e a expectativa é que passem dos R$ 32 bilhões em 2008.
Apesar não ser vista tradicionalmente como um “alimento” – a exemplo do arroz, do feijão e do milho, que são consumidos diretamente no prato -, a soja está embutida, direta ou indiretamente, em boa parte da dieta brasileira. É ingrediente básico de muitos alimentos industrializados no supermercado, na forma de lecitina ou óleo, e principal fonte de proteína na ração de suínos e aves, na forma de farelo. Só fica fora do menu do boi, que come principalmente pastagem.
”Quando você come frango e porco, está comendo proteína de soja”, diz o secretário-geral da Abiove, Fabio Trigueirinho. Segundo ele, seria impossível o Brasil abrir mão dessa cultura. “Se deixássemos de produzir soja, teríamos de importar.”
No rastro da soja no cerrado vieram o milho, o feijão, o arroz, as máquinas, os fertilizantes, as estradas, a construção civil e os vilarejos transformados em metrópoles da noite para o dia com a riqueza do agronegócio. “Falar de soja é falar de muita coisa. Os benefícios sociais e econômicos, diretos e indiretos, são enormes”, diz o ex-presidente da Embrapa, Silvio Crestana.
De mera periferia agrícola, o cerrado virou o celeiro de quase metade dos alimentos brasileiros. Hoje, 40% dos 200 milhões de hectares do bioma estão ocupados com 61 milhões de hectares de pastagens e 17,5 milhões de hectares de plantações.
Segundo cálculos da Embrapa e da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), é desse território que saem 47% dos grãos (soja, milho, arroz, feijão, sorgo e algodão caroço), 40% da carne bovina e 36% do leite produzidos no País. “A incorporação do cerrado à agricultura foi a maior conquista do Brasil”, afirma José Garcia Gasques, coordenador-geral de Planejamento Estratégico do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
No caso da soja, a contribuição do cerrado cresceu dez vezes entre as décadas de 70 e 80, passando de 2% para 20% da produção nacional do grão. No ano passado, chegou a 68,5%. De fato, a soja foi tão bem adaptada ao cerrado que hoje ela é muito mais produtiva no Centro-Oeste do que no Sul, onde foi originalmente introduzida. Em Mato Grosso, os melhores produtores chegam a ensacar 4,6 toneladas de soja por hectare (a maior produtividade do mundo), enquanto no Rio Grande do Sul a produtividade média é de 2 toneladas por hectare (a menor do Brasil).
Uma questão de luz
A soja que brota hoje no cerrado é muito diferente da que foi levada da China para os Estados Unidos, 200 anos atrás, e de lá trazida para o Brasil, no fim do século 19 – sempre restrita a regiões de clima temperado, próximo ou acima dos 30 graus de latitude. O pacote completo de conversão tecnológica inclui sementes, solo, microrganismos fixadores de nitrogênio e práticas adequadas de manejo – todos fatores essenciais para a produtividade da lavoura. Mas a diferença crucial está mesmo no DNA da planta, que os cientistas brasileiros retemperaram para adaptá-la ao cardápio climático tropical.
Curiosamente, a principal adaptação que os pesquisadores tiveram de fazer não foi para altas temperaturas nem para escassez de água (que é abundante nos meses de primavera e verão), mas para o chamado fotoperíodo – o tempo de luz ao qual a planta precisa ficar exposta para se desenvolver.
A soja é uma leguminosa que gosta de dias longos, com mais de 12 horas de radiação solar. Nas regiões temperadas de alta latitude, onde ela se originou, isso é fácil: no verão, por causa da inclinação da Terra, os dias passam facilmente das14 horas de luz. Já nas regiões tropicais, próximas ao Equador, como é o caso do cerrado, os dias e as noites são menores e mais constantes. Na altura do paralelo 16, onde fica Brasília, o fotoperíodo máximo no verão é de 13 horas e meia. E para uma planta, meia hora a mais ou a menos de luz por dia faz muita diferença.
Em condições de menor período de luz, a soja floresce precocemente e pára de crescer. Sem o melhoramento genético feito pela Embrapa, a soja plantada no cerrado floresceria mais cedo e não cresceria mais do que 30 centímetros, o que seria impraticável do ponto de vista econômico.
A pesquisa permitiu retardar o florescimento e, com isso, aumentar a chamada fase vegetativa (ou pré-reprodutiva) da planta de 30 dias para 45 dias, anulando o efeito do fotoperíodo sobre o florescimento. “É como se a gente retardasse o início da puberdade na espécie humana para termos indivíduos maiores”, compara Souza.
Hoje, a altura média da soja no cerrado é de 80 cm e os produtores podem optar por variedades de ciclo reprodutivo curto, médio ou longo, dependendo das condições de cada região.
Seleção artificial
O melhoramento genético na agricultura obedece aos mesmos princípios da evolução por seleção natural, segundo os quais os indivíduos mais adaptados ao ambiente são naturalmente selecionados para sobreviver e passar seus genes para as próximas gerações. A diferença é que a seleção nesse caso não é feita pelo homem, em vez da natureza.
Assim como cada pessoa é um pouco diferente da outra, cada pé de soja é um pouco diferente do outro. Uns crescem mais rápido, outros produzem mais grãos, outros resistem melhor a uma determinada doença ou precisam de menos água para sobreviver. O que os cientistas “melhoristas” fazem é selecionar anualmente as melhores plantas de cada lavoura de pesquisa, que são então usadas como matrizes para a produção de novas variedades.
É um processo lento, trabalhoso, que tipicamente passa por milhares de cruzamentos. A cada safra, pesquisadores da Embrapa selecionam 50 mil linhagens de soja e estabelecem 300 experimentos de campo, com 30 linhagens cada um. Cada nova variedade leva de oito a dez anos de pesquisa para ficar pronta.
Plinio Souza leva a reportagem do Estado até um galpão da Embrapa Cerrados onde estão armazenados milhares de saquinhos com amostras de soja selecionadas de várias regiões. Do lado de fora, técnicos debruçados sobre uma mesa passam as mãos por uma pilha de grãos, catando e eliminado aqueles que têm algum defeito, da mesma forma como uma dona de casa “cata feijão” antes do jantar. Só os melhores grãos permanecem no páreo para virar uma nova variedade. “É daqui que vai sair a soja que estará no campo em dez anos”, profetiza o pesquisador.
Souza sabe do que está falando. Foi ele quem selecionou, no início da década de 80, a primeira variedade lucrativa de soja para o cerrado, chamada Doko. Extremamente rústica e ao mesmo tempo produtiva, ela podia ser plantada em áreas recém-abertas (desmatadas), com bons retornos logo na primeira safra. Outras variedades precisavam de pelos menos três anos de cultivo de alguma outra cultura para dar o mesmo resultado, o que tornava o investimento inicial de abertura e correção do solo muito arriscado. “A Doko abriu de vez o cerrado para a soja”, afirma Souza. O resto da agricultura veio no embalo.
Enquanto Souza selecionava as linhagens mais promissoras no campo, os cruzamentos genéticos eram feitos nos laboratório da Embrapa Soja, em Londrina, pelo melhorista Romeu Kiihl. A Doko, segundo ele, nasceu de uma mistura de variedades americanas e indonésias. “Pegamos o que tinha de bom em cada uma delas e juntamos”, conta. Ele calcula que 50% dos ganho de produtividade da soja nas últimas três décadas deve-se ao melhoramento genético. A média nacional, que era de 1.700 kg/hectare na década de 80 saltou para 2.800 kg/hec, em 2006.
Solos e nitrogênio
Juntos, Souza e Kiihl plantaram as sementes tecnológicas de boa parte do PIB agrícola brasileiro. Nem mesmo a melhor soja, com a melhor das genéticas, porém, teria tido qualquer chance de sucesso no cerrado se não fosse por duas outras frentes de pesquisa: o melhoramento de solos e a fixação biológica de nitrogênio.
O solo nativo do cerrado é extremamente ácido (pH 4) e carente de nutrientes básicos, como cálcio, fósforo e potássio. “Não dá para produzir nada”, resume o agrônomo José Roberto Peres, hoje chefe de gabinete da presidência da Embrapa. Foram necessários muitos anos de pesquisa para chegar a uma receita eficiente de corretivos minerais e fertilizantes capazes de compensar essa deficiência. Especialistas calculam que, sem essa “correção”, a produtividade da soja no solo nativo do bioma não passaria de 0,3 tonelada/hectare. Ou seja: seria impraticável.
O ingrediente mais importante dessa receita, porém, não é um fertilizante químico, mas uma bactéria. Seu nome é Bradirhizobium japonicum, ou simplesmente rizóbio. Ela vive uma relação de simbiose com a soja, retirando nitrogênio do ar e transferindo-o para a planta em troca de carboidratos metabólicos. Sem essa parceria, os produtores teriam de adicionar 360 quilos de adubo nitrogenado (uréia) por hectare de solo para que a soja rendesse alguma coisa no cerrado. “Seria economicamente impossível”, afirma Peres. “Em vez disso, a bactéria tira todo o nitrogênio do ar. Não precisamos adicionar nada.”
Toda a soja cultivada no Brasil utiliza o nitrogênio do rizóbio inoculado na semente. A medida que a planta se desenvolve, a bactéria se multiplica e forma nódulos nas raízes, que funcionam como usinas biológicas de nitrogênio. A tecnologia foi desenvolvida pela lendária bióloga Johanna Döbereiner, da Embrapa, morta em 2000. Peres foi um de seus alunos.
Ferrugem
O melhoramento genético não termina nunca, pois sempre há novas dificuldades a serem superadas. A principal ameaça à produção de soja no País hoje é a ferrugem, uma doença também de origem asiática que chegou ao Brasil em 2001. O fungo entrou pelo Paraná e rapidamente se espalhou por todo o País, causando prejuízos de US$ 125 milhões logo no primeiro ano e de US$ 2,4 bilhões, na safra 2007/08, segundo cálculos do Consórcio Antiferrugem, criado em 2004 para combater a epidemia.
Há várias fungicidas disponíveis no mercado, mas o controle é difícil. E caro: cada aplicação custa o equivalente a três sacas de soja por hectare. Desde 2007, o Ministério da Agricultura estabeleceu um regime nacional de “vazio sanitário”, um período de 90 dias na entressafra durante o qual é proibido ter soja verde no campo, como forma de cortar a propagação do fungo.
Empresas do setor público e privado prometem plantas resistentes para o mercado em 2009. “Não vamos eliminar a necessidade de fungicidas, mas acho que vai ajudar bastante”, avalia Romeu Kiihl, que há cinco anos trocou a Embrapa (onde estava há 25) pelo setor privado. Hoje é diretor científico da TMG Tropical Melhoramento e Genética, uma empresa nos arredores de Londrina que também desenvolve variedades de soja resistentes à ferrugem.
Tanto a Embrapa Cerrados quanto a TMG lançaram suas primeiras variedades resistente à ferrugem em maio deste ano, no Congresso Brasileiro de Soja.
Ciência vai a campo contra o aquecimento
O dia mal começou e os termômetros já marcam acima dos 30 graus em Formoso do Araguaia, no sudoeste do Tocantins. Ofuscado pelo sol quente de inverno, o biólogo Sérgio Abud debruça-se sobre uma plantação de soja em que as plantas, mesmo já adultas e prontas para colheita, não chegam a 30 centímetros de altura.
”Essa era a típica lavoura de soja no Cerrado nos anos 70″, conta o pesquisador da Embrapa. E o pior: “Pode ser a típica lavoura do futuro também, se não fizermos o melhoramento genético agora.”
O problema é o calor. Abud, assim como tantos outros cientistas ligados ao setor agrícola, está preocupado com o aquecimento global. As previsões indicam que as mudanças climáticas ocasionadas pelo aumento da temperatura do planeta vão alterar drasticamente as condições de cultivo em várias regiões do País.
A perda de produtividade poderá ser dramática em algumas áreas, com consequências graves para a segurança alimentar e a sustentabilidade – ambiental, social e econômica – do agronegócio brasileiro, segundo um estudo de especialistas da Embrapa e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
A agricultura é a atividade que mais depende do clima e, portanto, a mais vulnerável às mudanças climáticas. O agricultor pode adubar o solo, construir açudes, selecionar sementes, mas não pode controlar a atmosfera. Cada planta tem seu tempo certo de plantio e colheita. Se a chuva que costuma chegar na primeira semana do mês começa a chegar na última, o planejamento de uma safra inteira pode ir por água abaixo.
Mais prejudicadas
A perda somada de áreas propícias para algodão, arroz, café, feijão, girassol, milho e soja poderá passar de 15% das áreas atuais já em 2050, se nada for feito para adaptar as lavouras aos efeitos do aquecimento global. A cultura que deverá ser mais prejudicada é a mais importante da balança comercial brasileira: a soja. Mesmo com todo o melhoramento genético das últimas décadas, a oleaginosa sino-brasileira poderá perder mais de 40% das áreas propícias para plantio em 2070.
As únicas beneficiadas pela mudança climática, segundo o estudo, serão a mandioca e a cana-de-açúcar. “Boas notícias para a produção de etanol, más notícias para a produção de alimentos”, resume o pesquisador Eduardo Assad, chefe da Embrapa Informática Agropecuária, em Campinas.
No Tocantins, Abud e seus colegas da Embrapa Cerrados procuram linhagens de soja que sejam naturalmente tolerantes a altas temperaturas para serem usadas no desenvolvimento de novas cultivares. “Não podemos esperar o problema chegar, temos de pesquisar agora”, diz Abud, lembrando que uma nova variedade pode levar dez anos para ficar pronta.
Formoso do Araguaia é o laboratório perfeito para o trabalho. Localizado bem no meio do Cerrado, a temperatura no município chega aos 40 graus no meio do ano. Um sistema de irrigação subterrânea permite que os experimentos sejam feitos até mesmo nos períodos mais secos. “Aqui é a prova de fogo”, anuncia o pesquisador Plínio Souza, da Embrapa Cerrados. “A soja que for bem aqui vai bem em qualquer lugar.”
Em uma visita de trabalho à região, acompanhada pelo Estado, ele caminha por entre as folhagens de um grande “jardim” experimental da Embrapa. A área de 7 hectares, instalada ao lado de uma lavoura comercial, está dividida em centenas de parcelas de 40 metros quadrados, cada uma plantada com uma variedade diferente de soja. Algumas diferenças são óbvias até para um leigo: parcelas com plantas verdes e vistosas versus plantas amarelas e ressecadas. Em outras, só o especialista vê: o grau de amadurecimento das vagens, o teor de umidade dos grãos, a capacidade da planta de adaptar o ângulo de suas folhas para captar a maior quantidade de luz.
Souza está atento a tudo. Ele passeia pelas parcelas, inspeciona as plantas com as mãos, mastiga algumas sementes e dá o veredicto: “Essa é boa para Brasília”, “essa é boa para o Maranhão”, “essa aqui já era”.
Próxima ao experimento está a plantação de soja miúda indicada por Abud. Trata-se de uma variedade “gaúcha”, que foi plantada ali apenas para multiplicação de sementes, aproveitando o sistema de irrigação local. “Você planta essa soja no Rio Grande do Sul e ela fica enorme”, diz o pesquisador – um exemplo perfeito da necessidade de compatibilidade genética entre a planta e o ambiente.
O problema é que o calor altera a biologia da planta e acelera seu metabolismo, fazendo com que ela floresça mais cedo ou aborte suas sementes. Consequentemente, a soja cresce menos e produz menos. Além disso, há o estresse hídrico. Assim como os seres humanos, as plantas e o solo transpiram mais – perdem mais água – quando a temperatura aumenta. A reação do vegetal, também nesse caso, é acelerar seu crescimento e florescer mais cedo.
Milhares de quilômetros ao sul de Formoso, na sede da Embrapa Soja em Londrina (PR), quem está atento a isso é o biólogo Alexandre Nepomuceno. Em parceria com cientistas japoneses, ele desenvolve desde 2004 uma variedade de soja transgênica tolerante à seca. Para isso, introduziu no DNA da soja um gene extra “de alerta”, que permite à planta detectar e reagir à falta de água de forma muito mais rápida e eficiente – por exemplo, fechando os estômatos de suas folhas para reduzir a transpiração.
”Nenhuma planta é totalmente resistente à seca. O que queremos é amenizar as perdas, dando mais tempo para a soja se defender”, explica Nepomuceno. Os primeiros testes de campo foram autorizados pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) e deverão ser realizados ainda neste ano. Experimentos feitos em ambiente controlado mostram que a soja com o gene é até 10% mais tolerante à seca do que a convencional.
Recursos escassos
Os resultados até agora são bons, mas são poucos. Segundo os cientistas, a quantidade de recursos disponíveis para pesquisas de adaptação às mudanças climáticas ainda está longe do ideal. “Tem muita coisa sendo feita, mas deveria ter muito mais. Poderíamos estar mais adiantados”, diz o agrônomo Hilton Pinto, do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) da Unicamp.
”Não estamos fazendo terrorismo. As soluções existem, mas precisamos agir rápido”, completa Assad. Segundo ele, a Embrapa investe atualmente R$ 40 milhões em pesquisas sobre mudanças climáticas – incluindo R$ 30 milhões para o melhoramento genético de plantas. “É um bom começo, considerando que três anos atrás não tinha nada.”
As agências governamentais de fomento também demoraram para prestar atenção no tema. Tanto que o estudo sobre o impacto do aquecimento global na agricultura, que Hilton coordenou com Assad, foi 100% financiado e encomendado pela embaixada britânica. Só no ano passado a Fapesp e o CNPq lançaram programas de pesquisa importantes nessa área. “Acho que ainda faltava as pessoas se convencerem de que isso é um problema de verdade”, avalia Hilton.
(O Estado de SP, 27/9)
Disponível em: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=66299
Acesso em: 28 set. 2009.